No Mundial do Qatar 2022, cada seleção percorreu em média 108,1 km por jogo, segundo o estudo que analisou os 64 jogos do torneio com os dados oficiais de rastreamento. Mas a média esconde diferenças grandes: as cinco seleções que mais correram fizeram entre 8% e 14% mais distância do que as cinco que menos correram — e a campeã, a Argentina, estava entre estas últimas. Publicámos este artigo antes do Mundial 2026, com uma projeção física para Portugal; depois do torneio, juntámos o registo real da seleção e substituímos as estimativas que não conseguimos confirmar pelos dados publicados.

Dados-chave

  • Qatar 2022: 108,1 km por equipa e por jogo, dos quais 9,0 km acima de 20 km/h e 2,3 km acima de 25 km/h.

  • As cinco seleções que mais correram foram os EUA, o Irão, a Austrália, o Canadá e a Sérvia; as cinco que menos correram, o Qatar, o Brasil, a Argentina, o México e o Equador.

  • Do Mundial de 2018 para o de 2022, a distância total subiu só cerca de 3%, mas a corrida acima de 20 e de 25 km/h subiu entre 16% e 19%.

  • Portugal fez cerca de 111 km por jogo no Mundial 2026, dentro do intervalo de 109–112 km que projetámos — e foi eliminado nos oitavos pela Espanha, que viria a ser campeã.

Como se mede a distância de uma seleção

Nos Mundiais, a distância é medida por rastreamento ótico: um sistema de várias câmaras no estádio regista a posição de cada jogador ao longo do jogo. O total da equipa soma a distância de todos os jogadores que entraram em campo, e o valor analítico está na divisão por velocidades — a parte feita acima dos 20 km/h (alta intensidade) e acima dos 25 km/h (sprint). Há dois cuidados a ter ao comparar números:

  • O tempo de jogo. Jogos com prolongamento, ou com muitos minutos de descontos, inflacionam os totais. No Qatar 2022, os descontos foram invulgarmente longos, e o estudo de referência mostra que a subida face a 2018 encolhe quando se ajusta a distância aos minutos jogados.

  • Os sistemas e os limiares. Cada torneio e cada fornecedor usam os seus métodos, por isso os valores absolutos de Mundiais diferentes não são diretamente comparáveis. As comparações mais seguras são entre seleções do mesmo torneio.

As seleções que mais e menos correram no Qatar 2022

O estudo mais completo sobre as exigências físicas das equipas no Qatar 2022 é o de Paul Bradley, publicado na Biology of Sport em 2024, feito com aprovação da FIFA e os dados de todos os jogos:

PosiçãoMais distância totalMenos distância total
1.ºEUAQatar
2.ºIrãoBrasil
3.ºAustráliaArgentina
4.ºCanadáMéxico
5.ºSérviaEquador

Fonte: Bradley, Biology of Sport, 2024, e FIFA Training Centre. As cinco do topo fizeram entre 8% e 14% mais distância do que as cinco do fundo.

O que isto significa: os EUA foram também a seleção com mais corrida acima de 20 e de 25 km/h — entre 50% e 100% mais do que a Costa Rica, a que menos fez nessas velocidades. É o retrato de um modelo de pressão alta e transições rápidas, não só de resistência. Do outro lado, a Argentina foi campeã a correr menos do que quase todos: o volume total diz pouco sobre o sucesso de uma seleção quando a posse de bola, a qualidade das decisões e o momento dos esforços pesam mais.

Em 2014, no Brasil, os EUA também estiveram à frente: nas contas do Business Insider com os totais publicados pela FIFA, fizeram cerca de 124 km por jogo (77,17 milhas) — um valor inflacionado pelo prolongamento contra a Bélgica, nos oitavos de final, porque os totais incluem esses 30 minutos. É um exemplo de como o tempo de jogo distorce as comparações.

O que fazer com isto

Se analisas o modelo de jogo da tua equipa, não te fiques pela distância total: divide-a por velocidades. Os 9,0 km acima de 20 km/h do Qatar 2022 são um valor por equipa — cerca de 900 m por posição de campo, em média —, não uma meta por jogador. Compara os teus atletas com colegas da mesma posição e com o próprio histórico, e olha para quando acontecem os esforços (após perda de bola, nas transições, no fim do jogo), não só para quantos são.

Jogadores de futebol

O jogo está a ficar mais intenso, não mais longo

A comparação entre Mundiais mostra uma tendência clara. Do Rússia 2018 para o Qatar 2022, as seleções cobriram só cerca de 3% mais distância total, mas entre 16% e 19% mais distância acima de 20 e de 25 km/h. O volume quase não mexeu; o que cresceu foi a intensidade. É uma das razões por que olhar só para quilómetros engana: duas equipas com o mesmo total podem ter jogos fisicamente muito diferentes. A mesma lógica aplica-se aos jogadores — o artigo sobre a distância por posição no futebol mostra que é na corrida a alta velocidade, e não na distância total, que as posições mais se distinguem.

Portugal no Mundial 2026: a projeção e a realidade

Antes do torneio, projetámos para Portugal uma média de 109 a 112 km por jogo, acima dos 108,1 km do Qatar 2022, com base num plantel com médios de grande mobilidade e no modelo de pressão de Roberto Martínez. O torneio confirmou o volume:

  • Segundo as estatísticas físicas oficiais da FIFA, Portugal acumulou cerca de 553 km em cinco jogos — perto de 111 km por jogo (cálculo sportmetricslab.com), dentro do intervalo projetado.

  • O jogo de maior volume foi o dos 16 avos de final com a Croácia (2-1): 116,6 km de Portugal contra 118,1 km da Croácia.

  • No total acumulado do torneio, Portugal ficou em 16.º — um indicador enviesado pelo número de jogos, porque as seleções que foram mais longe somaram mais minutos em campo.

  • O resto do percurso: 1-1 com a RD Congo e 5-0 ao Uzbequistão em Houston, 0-0 com a Colômbia em Miami, segundo lugar no Grupo K e eliminação nos oitavos de final, a 6 de julho, em Dallas, com um golo de Mikel Merino nos descontos.

A Espanha seguiu até ao título, com uma vitória por 1-0 sobre a Argentina no prolongamento da final, a 19 de julho. A análise jogo a jogo da seleção, com os convocados e o que os dados de forma acertaram, está no artigo sobre os jogadores portugueses no Mundial 2026.

Correção (outubro de 2026): a versão original deste artigo tinha um ranking com distâncias por jogo de 2014, 2018 e 2022 e uma comparação entre Alemanha, Espanha, França, Itália e Portugal em três Mundiais. A maior parte desses valores eram aproximações sem fonte publicada, e as entradas de 2018 tinham sido calculadas a partir de médias por jogador; em setembro retirámos as de 2018 e agora substituímos o resto pelos dados do estudo de 2024 e da FIFA. Corrigimos também uma meta de corrida a alta intensidade que era um valor por equipa apresentado como valor por jogador. Ver a nossa política de correções.

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O que fica: correr mais não chegou

O Mundial de 2026 confirmou a tese central deste artigo — o volume de corrida é condição, não garantia. Portugal chegou ao patamar físico que os dados projetavam, perto dos 111 km por jogo, e saiu nos oitavos de final num jogo decidido nos descontos, frente à futura campeã. Tal como a Argentina em 2022 venceu a correr menos do que quase todos, o que separa as seleções no topo é a distribuição do esforço — quanto dele acontece acima dos 20 km/h, nos momentos em que se ganha ou perde a bola — e não o total de quilómetros. Para o lado individual, vê o perfil de Cristiano Ronaldo em 2026 e as métricas da sua longevidade; para o custo energético por posição, a análise de calorias queimadas no futebol.