"Comer 2 gramas de proteína por kg de peso" é um conselho repetido tantas vezes que parece dogma. Não é. As necessidades de proteína variam com a modalidade, o volume de treino e o objetivo. Esta calculadora parte das recomendações da posição da International Society of Sports Nutrition (Jäger et al., 2017) e ajusta-as ao teu desporto, aos dias de treino por semana, ao objetivo e ao tipo de dieta.
O que a ciência diz hoje
- Referência para adultos (RDA): 0,8 g por kg por dia — o mínimo para evitar défice, não o ótimo para quem treina.
- Pessoas que treinam: a ISSN considera que 1,4 a 2,0 g/kg por dia chegam para construir e manter massa muscular na maioria dos casos.
- Ganho de massa muscular: numa meta-análise de 49 estudos (Morton et al., 2018), os ganhos do treino de força deixaram de aumentar a partir de cerca de 1,6 g/kg por dia.
- Défice calórico: para proteger a massa muscular enquanto se perde gordura, faz sentido ficar na parte alta do intervalo.
Como a calculadora chega ao valor
O ponto de partida é um intervalo por tipo de atividade e dias de treino por semana. Para corrida, HYROX e desportos de resistência, vai de 1,4–1,6 g/kg (1–2 dias) a 1,8–2,0 g/kg (5 ou mais dias); para ginásio e força, de 1,4–1,7 a 2,0–2,2 g/kg; para desportos de equipa, de 1,2–1,4 a 1,6–1,8 g/kg; para desporto recreativo, de 1,0–1,2 a 1,4–1,6 g/kg. Ao intervalo base soma 0,2–0,3 g/kg se o objetivo for ganhar massa muscular e 0,3–0,4 g/kg se for perder gordura, e mais 0,1 g/kg numa dieta vegana.
Exemplos concretos
Mulher, 60 kg, prepara uma meia maratona e corre 3–4 dias por semana: 1,6–1,8 g/kg, ou seja 96–108 g por dia — cerca de 25 g em cada uma de quatro refeições.
Homem, 80 kg, treina HYROX 5 vezes por semana e quer perder gordura: 1,8–2,0 g/kg mais 0,3–0,4 do défice, 2,1–2,4 g/kg — 168 a 192 g por dia, em quatro ou cinco refeições.
Homem, 75 kg, desporto recreativo 3–4 dias por semana: 1,2–1,4 g/kg, ou seja 90–105 g por dia.
O timing também conta — mas menos do que se dizia
A ideia de uma "janela anabólica" de 30 minutos depois do treino não resistiu à evidência: numa revisão de Aragon e Schoenfeld (2013), a margem é bem mais larga, e o que mais pesa é o total do dia e a distribuição. O que a ISSN recomenda:
- Distribuição — doses de cerca de 0,25 g/kg, ou 20 a 40 g de proteína de boa qualidade, a cada 3–4 horas.
- Qualidade — cada dose deve trazer cerca de 0,7 a 3 g de leucina, o aminoácido que mais estimula a síntese muscular; as proteínas animais e a soja têm mais por grama.
- Antes de dormir — uma dose de caseína (30–40 g) à noite é uma estratégia com evidência a favor para quem treina muito.
Onde os números desta calculadora podem falhar
A recomendação assume refeições distribuídas, fontes de qualidade e uma composição corporal típica. Casos em que convém ajustar:
- Dieta vegana — a calculadora já soma 0,1 g/kg. Mais importante do que o número é combinar fontes (leguminosas com cereais, soja) para chegar à leucina de cada refeição.
- Atletas mais velhos — a calculadora não pede a idade. Com a idade, o músculo responde menos à mesma dose: num estudo de Moore et al. (2015), homens de cerca de 71 anos precisaram de perto de 0,40 g/kg por refeição para a resposta máxima, contra 0,24 g/kg nos de 22 anos. Para atletas masters, refeições com mais proteína fazem sentido.
- Recuperação de lesão — as necessidades podem subir; nesse caso, a orientação deve vir de quem acompanha a recuperação.
Do alvo ao prato
Depois de definires o alvo diário, o mais simples é dividi-lo pelas refeições: 20 a 40 g em cada uma, como acima, em quatro refeições como o pequeno-almoço, o almoço, a refeição depois do treino e o jantar. Não é preciso pesar tudo: a calculadora serve para definir o alvo, e o dia a dia faz-se com hábitos, como incluir uma fonte de proteína em cada refeição.