Treinar por frequência cardíaca não é novo — a Polar lançou o primeiro monitor de frequência cardíaca sem fios em 1982 — e continua a ser uma boa forma de medir o esforço. O pace varia com o terreno, o vento e o calor; a frequência cardíaca mostra a resposta do corpo a esse esforço, embora também tenha as suas armadilhas (mais abaixo). Esta calculadora define cinco zonas de treino com base na tua frequência cardíaca máxima.
Como a calculadora define a frequência máxima
Por omissão, 220 − idade. É a estimativa mais conhecida: para alguém com 35 anos, 185 bpm. Se souberes a tua frequência máxima real, medida numa prova ou num teste, introdu-la — é sempre melhor do que qualquer fórmula.
Alternativa: Tanaka (2001). A fórmula 208 − (0,7 × idade), proposta por Tanaka e colegas, corrige a tendência da "220 − idade" para subestimar a frequência máxima de pessoas mais velhas. Para 35 anos, dá 184 bpm — praticamente o mesmo; aos 60, a diferença já é de seis batimentos (160 contra 166).
Opcional: método de Karvonen (1957). Se indicares a frequência cardíaca de repouso, a calculadora usa a frequência de reserva (máxima − repouso) e define as zonas como percentagem dessa reserva, somando depois o repouso. Para quem tem uma frequência de repouso baixa, as zonas ficam mais altas do que com a percentagem simples da máxima.
As cinco zonas
- Zona 1 (50–60% FCmax) — recuperação activa, caminhada rápida
- Zona 2 (60–70%) — base aeróbia, "conversação fácil"
- Zona 3 (70–80%) — endurance moderado, "conversação por frases curtas"
- Zona 4 (80–90%) — limiar anaeróbio, "só consegues dizer 1–2 palavras"
- Zona 5 (90–100%) — máximo, "não consegues falar"
Exemplos: como aplicar as zonas no treino
Atleta de 35 anos, frequência máxima estimada de 185 bpm (220 − 35):
- Zona 2: 111–130 bpm. Para corridas longas, trote leve, recuperação activa.
- Zona 3: 130–148 bpm. Para corrida contínua a ritmo moderado.
- Zona 4: 148–167 bpm. Para tempo runs, threshold workouts, fartlek.
- Zona 5: 167–185 bpm. Para intervalos curtos, repetições, sprints.
A regra 80/20 que muitos planos seguem: 80% do volume de treino em Zona 1–2 (fácil), 20% em Zonas 4–5 (duro). A Zona 3 — o "ritmo confortável-mas-rápido" — é onde muitos amadores acabam por fazer a maior parte do treino: demasiado dura para ser fácil, demasiado fácil para ser um estímulo intenso. Por isso há treinadores que lhe chamam a "zona cinzenta".
Quando os números não batem certo
Qualquer fórmula de frequência máxima é uma média: numa pessoa concreta, pode errar 10 batimentos ou mais, para cima ou para baixo. Para teres certeza, faz um teste de esforço máximo (com supervisão) ou observa o teu pico em sessões de intervalos muito intensas. Se vês picos consistentes acima do valor estimado, usa o valor observado.
Outros fatores que distorcem as leituras:
- Deriva cardíaca — numa corrida longa ao mesmo ritmo, a frequência cardíaca vai subindo, sobretudo com calor e desidratação.
- Stress, café, sono — afetam a frequência de repouso e, com ela, as zonas de Karvonen.
- Beta-bloqueantes — baixam muito a frequência máxima; quem os toma deve definir as zonas pela sensação de esforço, com orientação médica, e não por fórmulas.
Como usar as zonas no treino
Nas corridas longas, o objetivo é ficar na zona 2 mesmo quando a vontade é acelerar — é a parte mais difícil mentalmente. Nas sessões de intervalos, as zonas 4 e 5 servem de confirmação: se um intervalo que devia ser controlado te leva à zona 5, o ritmo está mal calibrado. No HYROX, a frequência cardíaca responde tanto às estações como à corrida, por isso as zonas servem mais para analisar a prova depois do que para a gerir durante; aí, a perceção de esforço é mais útil. Os dados de três provas do autor estão no artigo sobre o pace no HYROX.