No futebol feminino, o gasto calórico varia significativamente consoante a posição em campo. Uma médio-centro percorre distâncias distintas de uma guarda-redes, submete-se a padrões de esforço completamente diferentes e, por isso, as suas necessidades energéticas são únicas. Com o crescimento acelerado do futebol feminino em Portugal e no mundo, a análise de performance baseada em dados deixou de ser exclusiva do futebol masculino. Hoje, estudos com rastreamento GPS e calorimetria indireta fornecem benchmarks precisos sobre o gasto calórico por posição em jogadoras profissionais. Este artigo reúne essa evidência científica, apresenta os valores de referência para cada posição e explica o que os determina — para que atletas, treinadoras e fãs do futebol feminino entendam o esforço real por detrás de cada jogo.
Porque é que o gasto calórico difere entre posições?
O futebol é um desporto de esforço intermitente: períodos de alta intensidade (sprints, duelos, pressão) alternam com momentos de menor exigência (posicionamento, caminhada). A forma como cada posição gere esses ciclos de esforço determina o total de calorias gastas num jogo de 90 minutos. Vários fatores explicam as diferenças:
Distância total percorrida: as médias percorrem consistentemente mais metros do que defesas centrais ou guarda-redes.
Volume de corrida de alta intensidade: sprints e acelerações consomem muito mais energia por segundo do que corrida a ritmo moderado.
Número de acelerações e desacelerações: mudanças de direção frequentes aumentam a potência metabólica exigida.
Massa corporal da jogadora: influencia diretamente o total de quilocalorias gastas.
Nível competitivo: ligas de elite exigem intensidades superiores às ligas amadoras.
Temperatura e condições de jogo: calor e humidade aumentam o esforço cardiovascular.
A tecnologia de rastreamento GPS tornou-se a ferramenta padrão para medir estas variáveis em tempo real. Dispositivos com frequências de amostragem de 10 a 18 Hz registam acelerações, velocidades e distâncias percorridas a cada instante, permitindo calcular a potência metabólica de cada ação. Para compreender como esta tecnologia funciona e as suas limitações de precisão, consulta o artigo sobre precisão GPS em smartwatches testados em 2026.

Benchmarks científicos: o que dizem os estudos?
A investigação sobre o gasto energético no futebol feminino ainda está a crescer. Durante décadas, os estudos focaram-se maioritariamente nos jogadores masculinos, e as recomendações nutricionais para as atletas femininas eram frequentemente extrapoladas a partir desses dados. Felizmente, isso está a mudar.
Estudos recentes com água duplamente marcada (o método de referência para medir o gasto energético total) e rastreamento GPS em jogadoras profissionais fornecem valores cada vez mais precisos. Os dados mais robustos apontam para um gasto energético médio de exercício em dia de jogo de aproximadamente 881 kcal para jogadoras de elite, com a taxa metabólica de repouso a situar-se em torno das 1.510 kcal por dia — o que coloca o dispêndio energético total num dia de competição acima das 2.400 kcal.
Outros estudos com jogadoras profissionais estimam um gasto energético diário total (TDEE) entre 2.400 e 2.918 kcal ao longo de uma semana competitiva, com picos nos dias de jogo e reduções nos dias de descanso. Já a FIFA, no seu guia nutricional, estima um gasto de cerca de 1.100 kcal durante um jogo para uma jogadora de 60 kg — valor que sobe com o aumento da massa corporal e da intensidade competitiva.
Como as posições influenciam o gasto diário total
Um estudo norueguês com 51 jogadoras profissionais durante a época 2021/2022, que utilizou o método de água duplamente marcada para medir o TDEE, encontrou diferenças estatisticamente significativas entre posições. As guarda-redes apresentaram valores de TDEE distintos das defesas, médias e avançadas. Curiosamente, ao contrário do que acontece no futebol masculino, as guarda-redes femininas mostraram gastos energéticos relativos (por kg de massa isenta de gordura) comparáveis aos das jogadoras de campo em vários estudos recentes.
Um estudo na liga holandesa feminina profissional mediu o gasto de atividade física (PAEE) relativo à massa isenta de gordura e encontrou que as defesas apresentavam o valor mais elevado (28,4 kcal/kg FFM), seguidas das guarda-redes (26,1 kcal/kg FFM), médias (23,8 kcal/kg FFM) e avançadas (21,5 kcal/kg FFM) — refletindo o esforço físico de pressão defensiva e duelos intensos que estas posições implicam.
Calorias queimadas por posição: tabela de referência
Com base nos dados de estudos biomecânicos, rastreamento GPS e calorimetria indireta em jogadoras profissionais, apresentamos a seguinte tabela de referência para um jogo de 90 minutos. Os valores assumem uma jogadora com peso médio de 62–65 kg, típico de equipas profissionais femininas europeias, em contexto de competição de alto nível.
Posição | Calorias gastas (kcal) | Distância média (km) | Corrida alta intensidade | Intensidade relativa |
|---|---|---|---|---|
Guarda-Redes | 550–750 | 5,5–6,5 | Baixa (explosiva) | ★★☆☆☆ |
Defesa Central | 800–950 | 9,0–10,0 | Moderada | ★★★☆☆ |
Lateral | 950–1.100 | 10,5–11,5 | Alta | ★★★★☆ |
Médio Defensivo | 900–1.050 | 10,0–11,0 | Moderada-Alta | ★★★☆☆ |
Médio Centro / Caixa | 1.000–1.150 | 11,0–12,0 | Alta | ★★★★☆ |
Médio Ala / Extremo | 950–1.100 | 10,5–11,5 | Muito Alta (sprints) | ★★★★★ |
Avançada / Ponta de Lança | 850–1.050 | 9,5–10,5 | Alta (sprints atrás) | ★★★★☆ |
Nota: Os valores são estimativas baseadas em estudos científicos com jogadoras profissionais femininas. O gasto calórico real varia com o peso corporal, nível competitivo, sistema tático e condições ambientais. Para estimativas personalizadas de gasto calórico em corrida, podes usar a nossa calculadora de pace de corrida.
Análise detalhada por posição
1. Guarda-Redes: explosividade em área reduzida
A guarda-redes é a posição com menor gasto calórico absoluto num jogo de 90 minutos, tipicamente entre 550 e 750 kcal. A distância percorrida é significativamente inferior à das jogadoras de campo — raramente ultrapassa os 6,5 km — mas o perfil de esforço é muito específico: ações explosivas de curta duração (saltos, mergulhos, mudanças de direção bruscas), intercaladas com longos períodos de baixa atividade.
Elevado número de contrações isométricas (manutenção de postura de guarda)
Picos de frequência cardíaca muito intensos mas breves
Menor distância a alta velocidade comparativamente às jogadoras de campo
Gasto calórico em treino específico (trabalho de reação, força) não incluído nesta estimativa de jogo
Embora o gasto calórico em jogo seja menor, as guarda-redes de elite realizam sessões de treino específico intensas — o que eleva o seu gasto energético semanal a níveis comparáveis ao de algumas jogadoras de campo.
2. Defesa Central: duelos e posicionamento constante
As defesas centrais percorrem entre 9,0 e 10,0 km por jogo, com um perfil de intensidade moderado mas exigente em termos de duelos aéreos, disputas físicas e sprints reativos (em perseguição de avançadas ou em basculações defensivas). O gasto calórico estimado situa-se entre 800 e 950 kcal.
Estudos biomecânicos mostram que as defesas femininas apresentam, proporcionalmente, um dos maiores gastos energéticos relativos à massa isenta de gordura — reflexo da intensidade dos duelos físicos e das acelerações defensivas que caracterizam a posição.
3. Lateral: a posição mais aerobicamente exigente da defesa
As laterais são, em média, as jogadoras defensivas que mais calorias gastam num jogo — entre 950 e 1.100 kcal. Num sistema moderno de futebol feminino, as laterais são chamadas a atacar e a defender, percorrendo frequentemente o corredor lateral em ambas as direções ao longo dos 90 minutos. A distância percorrida pode atingir os 11,5 km, com elevada proporção de corrida a alta velocidade.

4. Médio Defensivo: o motor do equilíbrio
O médio defensivo combina volume de corrida com intensidade moderada-alta. Com um gasto estimado entre 900 e 1.050 kcal por jogo, esta posição exige constante cobertura de espaço, transições rápidas e pressão sobre as adversárias no meio-campo. A distância média situa-se entre os 10,0 e os 11,0 km.
5. Médio Centro / Interior: o maior gasto calórico absoluto
As médias-centro são consistentemente as jogadoras que maior distância total percorrem num jogo de futebol feminino de alto nível — entre 11,0 e 12,0 km —, o que se traduz no maior gasto calórico estimado: 1.000 a 1.150 kcal por jogo. Os dados do Campeonato do Mundo Feminino de 2023 confirmam que as médias centrais e defensivas acumulam as maiores distâncias totais entre todas as posições de campo. Para acompanhar este volume de corrida, estas jogadoras necessitam de um VO₂máx elevado. Podes estimar o teu com a nossa calculadora de VO₂máx.
6. Médio Ala / Extremo: sprints repetidos e pico de velocidade
Os extremos e médias ala apresentam um perfil de esforço diferente: menor distância total que as médias-centro, mas muito maior proporção de corrida a alta velocidade e sprints repetidos. O gasto calórico estimado é de 950 a 1.100 kcal por jogo. A análise do Mundial de 2023 revelou que os extremos e avançadas largas cobrem distâncias de sprint comparáveis às das pontas de lança — com grande variabilidade entre jogadoras.
7. Avançada / Ponta de Lança: sprints de finalização e pressão alta
Num dado surpreendente da análise do Campeonato do Mundo Feminino de 2023, as pontas de lança (centroavantes) emergem como as jogadoras com maior distância de sprint absoluta — uma média de 263 metros de sprint por jogo, superior em 7-8% a outras posições atacantes. O gasto calórico estimado situa-se entre 850 e 1.050 kcal, com a intensidade a concentrar-se em ações explosivas: movimentos de rutura, pressing no corredor adversário e arranques para receber a bola em zonas de finalização. Para acompanhar o esforço nutritivo, estas atletas devem monitorizar o consumo proteico — a nossa calculadora de proteína para atletas pode ajudar.
Futebol feminino vs. futebol masculino: diferenças no gasto calórico
Um dos temas mais discutidos na fisiologia do desporto é a comparação entre o esforço físico do futebol feminino e masculino. A evidência científica mostra que as jogadoras profissionais percorrem ligeiramente menos distância total por jogo (9–11 km vs. 11–13 km nos homens), mas a intensidade relativa ao VO₂máx é comparável ou até superior — estima-se que as jogadoras femininas joguem a aproximadamente 85% do VO₂máx durante a maior parte do jogo.
Parâmetro | Futebol Feminino (Elite) | Futebol Masculino (Elite) |
|---|---|---|
Distância total por jogo | 9–11 km | 11–13 km |
Corrida alta intensidade | 22–28% do total | 20–25% do total |
Gasto calórico em jogo (média) | ~881 kcal | ~1.200–1.500 kcal |
TDEE dia de jogo | ~2.400–2.918 kcal | ~3.500–4.300 kcal |
% VO₂máx durante o jogo | ~85% | ~75–80% |
Taxa metabólica de repouso | ~1.500 kcal/dia | ~1.800–2.000 kcal/dia |
A diferença no gasto calórico absoluto entre géneros deve-se principalmente à maior massa corporal e massa muscular dos jogadores masculinos — não a uma menor intensidade do jogo feminino. Em termos relativos (kcal por kg de peso corporal), as diferenças são muito menores. Para aprofundares as diferenças entre distâncias e intensidades de corrida no futebol feminino por posição, consulta o nosso artigo dedicado: Futebol Feminino: Distância e Intensidade de Corrida por Posição.
O problema do défice energético no futebol feminino
Um dado alarmante que emerge da investigação científica é que as jogadoras de futebol feminino frequentemente consomem menos calorias do que as que gastam. Estudos recentes mostram que a ingestão energética média (1.548 a 2.400 kcal/dia) fica sistematicamente abaixo do gasto energético total (2.400 a 2.918 kcal/dia), com uma diferença de cerca de 22%.
Esta discrepância tem consequências sérias para a performance e a saúde:
Depleção de glicogénio muscular: os hidratos de carbono fornecem 60–70% da energia durante o jogo; um défice de CHO compromete a intensidade e a resistência à fadiga.
Baixa disponibilidade energética (Low Energy Availability): associada a disfunção menstrual, perda de densidade óssea e maior risco de lesão.
Recuperação comprometida: sem energia suficiente, a síntese proteica e a reparação muscular ficam prejudicadas após treinos e jogos.
Risco aumentado de síndrome RED-S: deficiência relativa de energia no desporto, com impacto na saúde óssea, cardiovascular e imunológica.
Para gerir o treino cardíaco e as zonas de esforço em função do gasto calórico, considera usar a nossa calculadora de zonas de frequência cardíaca — uma ferramenta útil para periodizar a intensidade do treino.
Como a posição influencia as necessidades nutricionais
Conhecer o gasto calórico por posição tem aplicação prática direta na nutrição desportiva das atletas. Não faz sentido que todas as jogadoras de um plantel sigam o mesmo plano alimentar, especialmente em dias de jogo. Eis as principais implicações por posição:
Guarda-redes: menor necessidade de hidratos de carbono pré-jogo; maior foco em proteína para suportar a força e a potência explosiva.
Defesas centrais: equilíbrio entre CHO para suportar sprints reativos e proteína para recuperação de duelos físicos.
Laterais e médias: as maiores consumidoras de hidratos de carbono — devem priorizar a recarga de glicogénio nas 24–48h antes do jogo.
Extremos: necessitam de estratégias de hidratação e CHO intrajogo (géis, bebidas desportivas) dado o volume elevado de sprints.
Avançadas: o padrão explosivo de esforço exige CHO de absorção rápida antes e durante o jogo, e proteína de qualidade na recuperação.
Perguntas Frequentes
Quantas calorias queima uma jogadora de futebol num jogo?
Em média, uma jogadora de futebol feminino profissional gasta entre 850 e 1.150 kcal durante um jogo de 90 minutos, dependendo da posição, do peso corporal e da intensidade da partida. O gasto total no dia de jogo (incluindo metabolismo basal e atividade diária) pode superar as 2.400 kcal.
Qual a posição que mais calorias queima no futebol feminino?
As médias-centro e as laterais são, em geral, as posições com maior gasto calórico absoluto por jogo, devido ao maior volume de corrida total e à elevada proporção de corrida a alta intensidade. Os estudos científicos mais recentes colocam as médias-centro como as jogadoras que mais distância percorrem — e, consequentemente, mais energia gastam.
As jogadoras de futebol feminino gastam menos calorias do que os masculinos?
Em termos absolutos, sim — principalmente devido à menor massa corporal e muscular. No entanto, a intensidade relativa (% do VO₂máx) é comparável ou superior. Estima-se que as jogadoras femininas joguem a cerca de 85% do seu VO₂máx durante grande parte do jogo, o que é fisiologicamente muito exigente.
Como posso calcular as calorias gastas no futebol feminino?
A forma mais precisa é através de dispositivos GPS com acelerómetro combinados com medições de frequência cardíaca. Para estimativas individuais, a fórmula MET (Equivalente Metabólico da Tarefa) para futebol competitivo atribui um valor de 10 METs, o que para uma jogadora de 60 kg equivale a cerca de 900 kcal por hora de jogo. Ferramentas de análise como as disponíveis na nossa calculadora de estatísticas por 90 minutos podem ser um bom ponto de partida.
O ciclo menstrual afeta o gasto calórico no futebol feminino?
Sim, de forma indireta. As flutuações hormonais ao longo do ciclo menstrual influenciam as reservas de glicogénio muscular em repouso e a capacidade de oxidação de substratos energéticos. Na fase folicular, as reservas de glicogénio tendem a ser ligeiramente menores — o que pode afetar a performance em jogos de alta intensidade se a ingestão de hidratos de carbono não for ajustada.
Conclusão: dados para treinar e nutrir melhor
O futebol feminino é uma modalidade de alta exigência energética — e os dados científicos confirmam-no de forma cada vez mais clara. Com um gasto calórico em dia de jogo superior a 2.400 kcal e diferenças significativas entre posições, é essencial que atletas e treinadoras adotem uma abordagem individualizada e baseada em evidências tanto no treino como na nutrição.
As médias-centro e as laterais lideram o gasto energético absoluto; as guarda-redes têm um perfil mais explosivo e de menor volume; as avançadas surpreendem pelo volume de sprint. Cada posição tem as suas especificidades — e conhecê-las é o primeiro passo para otimizar a performance, a recuperação e a saúde a longo prazo.
Se queres aprofundar a tua análise de performance no futebol feminino, explora os nossos artigos sobre distância e intensidade de corrida por posição e utiliza as ferramentas de cálculo disponíveis no SportMetricsLab para dados adaptados ao teu perfil de atleta.